Candidato a presidente pela sétima vez, Lula unifica a esquerda, mas levanta questões sobre o futuro sem ele
Luiz Inácio Lula da Silva, presidente e candidato à Presidência pela sétima vez, subirá ao palco na convenção do Partido dos Trabalhadores neste domingo (2). Aos 80 anos, ele se apresenta com a esquerda brasileira mais unida do que em qualquer outro momento da sua longa trajetória política.
Pela primeira vez em quase 40 anos, Lula é o candidato presidencial de todos os cinco principais partidos de centro-esquerda. Essa unidade, formada em resposta à crescente extrema-direita, também suscita questões sobre a liderança futura do movimento sem a presença do ex-líder sindical.
"Não será fácil", afirmou Juliano Medeiros, ex-presidente do PSOL, um dos partidos da coligação de Lula. "Teremos que debater muito para ver se conseguimos manter uma convergência na esquerda que vá além de nomes e da ameaça do crescimento da extrema-direita."
O fortalecimento da coalizão em torno de Lula é uma estratégia de sobrevivência, uma vez que os brasileiros estão se tornando cada vez mais conservadores, reduzindo o espaço da esquerda no país. De acordo com o pesquisador Felipe Nunes, autor do livro "Brasil no Espelho", de 2014 a 2023, a parcela de brasileiros que se consideram de direita subiu de 26% para 37%, enquanto a dos que se identificam como de esquerda caiu de 29% para 23%.
Esse cenário propiciou a ascensão de figuras da extrema-direita, como o ex-presidente Jair Bolsonaro, que foi condenado no ano passado por tentativa de golpe de Estado. Atualmente, seu filho, Flávio Bolsonaro, concorre contra Lula.
"A direita-extrema se mantém viva e o campo popular democrático, que nós representamos, precisa se unir", destacou Carlos Lupi, presidente do PDT, que teve seu próprio candidato à Presidência nas últimas eleições de 2022, mas se aliou a Lula no segundo turno. "Estamos em um momento muito singular. Os democratas estarão de um lado e filhotes da ditadura, do outro."
Essa mudança é também regional; Lula é um dos poucos líderes de esquerda a governar um país sul-americano atualmente, após a eleição de líderes de direita em nações como Chile, Colômbia e Argentina nos últimos anos.
A maioria dos membros da esquerda acredita que reverter a tendência de guinada à direita sem a liderança de Lula parece inviável neste momento. O cientista político Creomar de Souza, da consultoria Dharma Political Risk and Strategy, indicou que o espaço político reduzido da esquerda é ainda mais acentuado pela dificuldade em encontrar uma narrativa eficaz nas redes sociais, limitando as opções viáveis dos partidos para vencer.
"Ao entrarem na campanha eleitoral do Lula, eles (os demais partidos) têm a vantagem de se ancorar na figura política que Lula representa e nos impactos que essa figura ainda tem do ponto de vista eleitoral", observou.
Atualmente, Lula lidera as pesquisas de opinião para os dois turnos da eleição, com uma margem pequena, mas consistente, sobre Flávio Bolsonaro.
Eden Valadares, secretário de comunicação do PT, afirmou que não observa um declínio da esquerda, mas sim uma polarização, onde a direita tradicional perde terreno para a extrema-direita, enquanto a esquerda amadurece diante dessa ameaça. "O apoio de todos esses partidos a Lula não é automático", acrescentou, ressaltando que o PT teve que fazer concessões para garantir esse apoio. "Há um processo de mediação no qual todos se sentem incluídos."
Essas concessões incluem, por exemplo, abrir mão da cabeça de chapa no Rio Grande do Sul em favor do PDT, o que nunca havia acontecido desde 1989. O mesmo ocorreu no Paraná.
"Esses dois exemplos mostram que avançamos como nunca tínhamos avançado", disse Lupi. "Isso para mim teve muita força. O PT teve a compreensão do momento que temos à frente."
Apesar disso, Lula, que tem sido uma figura constante nas campanhas eleitorais brasileiras desde 1989, terá 84 anos ao final de um novo mandato, caso seja reeleito, e não possui um sucessor claro.
Nos bastidores, muitos reconhecem que uma luta intensa pelo legado de Lula poderá se iniciar já durante um eventual quarto mandato. Os ex-ministros Fernando Haddad e Camilo Santana são mencionados como possíveis sucessores dentro do PT, mas nenhum deles possui o mesmo prestígio que Lula, seja no cenário brasileiro ou internacional.
Aqueles que almejam liderar a esquerda em 2030, quando está prevista a próxima eleição presidencial, enfrentarão o desafio de convencer o campo político a permanecer unido.
"Hoje nós temos a sorte de ter uma figura como Lula, que tem a capacidade de falar para além da bolha da esquerda", observa Juliano Medeiros. "Entre agora e 2030, teremos de debater uma visão para o país, uma estratégia comum."
Perguntas Frequentes
Qual a importância da unidade da esquerda em torno de Lula?
A unidade da esquerda é essencial para enfrentar a crescente extrema-direita no Brasil, e a candidatura de Lula representa essa convergência.
Quem são os possíveis sucessores de Lula?
Os ex-ministros Fernando Haddad e Camilo Santana são alguns dos nomes que podem surgir como sucessores, mas nenhum possui o mesmo prestígio que Lula atualmente.
Como a polarização política afeta a esquerda?
A polarização política tem dificultado a narrativa e o espaço da esquerda, que precisa encontrar formas eficazes de se comunicar com o eleitorado.
Quais os desafios da esquerda após a presidência de Lula?
A principal tarefa será manter a unidade e encontrar uma nova liderança que consiga representar e unir o movimento diante das crescentes tensões políticas.