A Revolut chegou a uma avaliação de US$ 115 bilhões em julho de 2026, praticamente o dobro do Nubank (US$ 74 bilhões). As duas fintechs surgiram quase na mesma época e são frequentemente comparadas, mas o CEO da Revolut no Brasil, Glauber Mota, afirma que os modelos de negócio são essencialmente diferentes.
Em entrevista ao Money Minds, programa do Money Times no YouTube, Mota explicou que a Revolut optou por crescer de imediato em vários países e depois aprofundar em cada um. O Nubank, por outro lado, começou no Brasil, se estabeleceu aqui e só depois expandiu para outras localidades. Hoje a Revolut está em mais de 40 países, com ambição de chegar a 100.
O papel do Nubank e a visão sobre crédito
Mota reconhece que o Nubank teve papel importante na formação do mercado brasileiro de bancos digitais. Segundo ele, quando o Nubank começou a crescer, o consumidor ainda tinha resistência a confiar seu dinheiro a uma fintech e estava menos acostumado a resolver a vida financeira pelo aplicativo. Essa barreira, afirma, já foi em grande parte superada.
"Nubank não há dúvida que é um case de sucesso aqui na região", diz Mota. "Ele foi por muito tempo tratado como benchmark."
Para o executivo, a Revolut se beneficia desse trabalho anterior ao chegar a um mercado em que o consumidor já está familiarizado com serviços financeiros digitais. Outro ponto destacado é o crédito. A Revolut ainda tem exposição pequena nessa área em relação ao volume de depósitos, o que, na visão de Mota, deixa espaço para ampliar a operação.
"Tem que lembrar que a gente nem faz crédito ainda", afirma. "Significa que a gente tem um potencial a ser destravado ainda muito maior para o futuro."
Estratégia multiplataforma e o cliente-alvo
A Revolut não se enxerga necessariamente disputando o mesmo cliente do Nubank em todas as frentes. Mota afirma que a fintech procura atender um público entre dois extremos: consumidores no início da jornada financeira, para quem o crédito de curto prazo é uma das principais necessidades, e clientes de alta renda acostumados a atendimento personalizado.
O foco é um consumidor que prefere o autosserviço, é sensível a preço, mas também quer benefícios que historicamente ficaram restritos aos clientes de maior renda. Em vez de concentrar a estratégia em uma única vertical, a Revolut busca reunir diferentes serviços financeiros em uma mesma plataforma.
No Brasil, isso significa competir em algumas frentes com bancos digitais e incumbentes, em outras com casas de câmbio, corretoras e até cartões de crédito premium. "No câmbio, eu estou competindo com as casas que fazem câmbio mais barato", diz Mota. Nos pagamentos do dia a dia, a disputa inclui bancos tradicionais e digitais. Já no segmento de cartões premium, a concorrência é com produtos voltados à alta renda.
Brasil como laboratório e ambição local
A disputa com empresas brasileiras tem uma função maior na estratégia da Revolut. Mota afirma que o Brasil é um mercado importante não apenas pelo tamanho, mas porque serve como laboratório para a operação global. O país tem uma das infraestruturas de pagamentos mais desenvolvidas, com o Pix como principal exemplo, e um consumidor considerado receptivo a novas tecnologias. Ao mesmo tempo, é um dos mercados mais competitivos para serviços financeiros digitais.
"Querer vencer no Brasil significa provar um case de negócio muito relevante", afirma o CEO. Por isso, a ambição da operação brasileira não é apenas conquistar uma fatia do mercado local. Mota afirma que gostaria de ver o Brasil entre os três ou cinco principais mercados da Revolut nos próximos anos, uma ambição pessoal, segundo ele, e não uma meta oficial da companhia.
Na prática, a competição com o Nubank é apenas uma parte da estratégia. A Revolut quer disputar diferentes verticais do sistema financeiro ao mesmo tempo, usando como principal argumento a combinação de serviços globais, câmbio, investimentos e benefícios. "Se você misturar isso tudo, espalhar no mundo inteiro, é isso que a Revolut está fazendo", resume Mota.