# Wall Street sob pressão: Japão e big techs e os títulos dos EUA

> Os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA atingiram o maior nível desde 2002, com a disputa por capital entre o Japão e as big techs pressionando Wall Street. O cenário reflete a concorrência global por financiamento, elevando os custos de empréstimos americanos e impactando a liquidez dos mercados de ações.

*Viva Capital · Investimentos · 31 de agosto de 2026 · Thiago Vasques*

Os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA atingiram o maior nível desde 2002. Japão e big techs disputam capital, pressionando Wall Street. Entenda o cenário.

Os mercados norte-americanos operam com volatilidade, e um fator voltou a pressionar: os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA, os Treasuries. Nas últimas duas semanas, o S&P 500 e o Dow Jones acumularam baixa de 0,5%, enquanto o Nasdaq caiu mais de 1%. No último mês, o Treasury de 30 anos ultrapassou 5,3%, maior nível desde meados de 2002.

Especialistas consultados pelo Money Times apontam que não é só a questão fiscal que pesa, com a dívida dos EUA acima de US$ 40 trilhões pela primeira vez. Há também a concorrência dos títulos japoneses e da dívida de empresas. Para Beto Saadia, economista-chefe da Nomos, os Treasuries passaram a ter concorrência dos títulos japoneses, com o aumento de juros no Japão tornando os rendimentos do país mais atrativos. O Japão enfrenta pressão inflacionária, e o governo da primeira-ministra Sanae Takaichi pisa no acelerador dos gastos, exigindo postura mais agressiva do banco central japonês.

Além disso, Saadia afirma que as hyperscalers, como Meta, Amazon e Alphabet, e empresas expostas à IA entraram na competição ao emitirem dívida privada. Segundo dados do JP Morgan, a emissão dessas empresas saltou de US$ 93 bilhões, em 2025, para US$ 182 bilhões até julho de 2026, quase o dobro em menos de um ano, correspondendo a 12% do total de emissão bruta de high grade nos EUA. O banco vê a competição por funding contra emissão soberana como fator-chave para os rendimentos reais mais altos na parte longa da curva.

O movimento de avanço da emissão de dívida pelas empresas privadas começou a ganhar força no último ano. "São empresas de grau de risco baixo e alta qualidade que competem com os títulos do governo norte-americano, já que essas companhias estão com taxas interessantes", afirma Saadia. "Elas sempre tiveram muito caixa líquido, mas estamos vendo pela primeira vez esse volume de emissão de dívidas por essas empresas."

O UBS GWM, em relatório, afirma que o investimento em IA está transformando o mercado de títulos, com grandes empresas de tecnologia emitindo cada vez mais dívida para financiar capex relacionado à IA. A preferência por financiamentos de prazo mais longo cria competição adicional pelo capital dos investidores, em momento em que as necessidades de financiamento dos governos já são substanciais. "Se os investimentos em IA permanecerem elevados, a emissão de dívida corporativa poderá continuar pressionando para cima os rendimentos dos títulos públicos de longo prazo, mesmo que o cenário econômico permaneça favorável", considera o UBS.

Para Paula Moreno, sócia e co-CIO da Armor Capital, a competição da dívida privada com o financiamento público drena liquidez no mundo. Após a intervenção recente no mercado de títulos, com o secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmando que dobraria as recompras de títulos de médio e longo prazo, o UBS aponta que a ação pode melhorar o funcionamento do mercado, mas não resolve o desequilíbrio fiscal subjacente. Moreno lembra que, em fevereiro, o presidente Donald Trump sofreu revés em decisão da Suprema Corte que derrubou as tarifas externas. "Temos uma trajetória ruim do fiscal, emitindo mais títulos, e há também a competição entre dívida privada e pública", afirma. A Armor trabalha com cenário de alta nos juros, com preços do petróleo incômodos.

O cenário vai além da preocupação tradicional com a dívida pública. Com o Japão disputando capital e as big techs emitindo dívida para financiar IA, o Tesouro dos EUA divide espaço com novos emissores na parte longa da curva. Se a pressão fiscal continuar combinada à demanda privada, os juros longos podem permanecer pressionados, explicando por que o mercado de Treasuries segue no centro das atenções.

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Fonte (canonical): https://vivacapital.com.br/investimentos/wall-street-sob-pressao-japao-big-techs-tem-ver-disparada-titulos-eua/
