Sabesp (SBSP3): dois anos após a privatização, o que deu certo, os riscos e o que esperar da companhia
Dois anos após a privatização, a Sabesp (SBSP3) registrou em 2025 o maior volume anual de investimentos da sua história: R$ 15,2 bilhões, alta de 120% sobre 2024. A meta de universalização até 2029 é vista como factível por analistas, que destacam a aceleração das obras e a gestão integrada dos reservatórios como pontos positivos. Riscos incluem o cumprimento das metas de expansão em áreas periféricas e a manutenção do ritmo de investimentos.
O que mudou com a privatização da Sabesp
Com a privatização, o Estado de São Paulo reduziu a participação na empresa de 50,3% para 18,3%, em uma operação que movimentou R$ 14,8 bilhões. A Equatorial (EQTL3) entrou como investidora de referência, adquirindo 15% das ações por R$ 6,9 bilhões.
Para analistas ouvidos pelo Money Times, os dois anos mostram uma execução positiva, motivada principalmente pela aceleração dos investimentos e confiança de que a meta de universalização será cumprida.
Investimentos recordes e projeções para 2026
Em 2025, a empresa registrou o maior volume anual de investimentos da sua história: R$ 15,2 bilhões, alta de 120% do registrado em 2024, quando haviam sido investidos R$ 6,9 bilhões. Esse valor rompeu um patamar histórico que, durante uma década, ficou próximo de R$ 7 bilhões ao ano.
Para 2026, a companhia projeta investimentos ainda maiores, da ordem de R$ 20 bilhões, concentrados principalmente na expansão do sistema de esgotamento sanitário.
A gestão dos riscos hídricos e a aquisição da Emae
Para Fillipe Andrade, vice-presidente de Equities Research do Itaú BBA, um dos grandes destaques da "nova Sabesp" é a capacidade de se preparar e antecipar potenciais adversidades, tomando iniciativas práticas e de resultados concretos. Ele cita como exemplo o enfrentamento da situação crítica dos reservatórios da Grande São Paulo no fim de 2025, quando esses atingiram a pior situação hídrica desde a crise de 2014-2015.
Nos meses seguintes, em resposta, a companhia passou a adotar medidas como redução de pressão na rede durante determinados horários, campanhas de uso racional da água e intensificação da gestão operacional dos reservatórios.
Somou-se a isso também a aquisição da Emae, operadora de reservatórios estratégicos, como Billings e Guarapiranga. Com esse negócio, a Sabesp conseguiu unificar a gestão da infraestrutura hídrica da região, especialmente em situações críticas.
"A empresa também analisou o tema sob um espectro estratégico, fazendo a aquisição da Emae, que deverá contribuir no futuro para reforçar seu planejamento de resiliência", disse Andrade, em entrevista ao Money Times.
O papel da Equatorial na eficiência operacional
Gustavo Fabricio, sócio da RPS Capital, acrescenta a presença da Equatorial nos pontos positivos. "A Equatorial tem um histórico de investimento muito bom. Já são praticamente 20 anos em que eles conseguem entregar investimentos bem relevantes nas investidas, e eu acredito que a Sabesp não é diferente", disse ao Money Times.
Antes da privatização, a Sabesp era vista como uma companhia com estruturas sobrepostas e baixa eficiência operacional. Na avaliação do gestor, a mudança de controle permitiu uma reorganização rápida da empresa, com centralização de áreas, redução de custos e maior eficiência na contratação de serviços.
"Vimos que ela teve uma evolução muito rápida. Alguns meses após a privatização, já com a nova administração, eles conseguiram suportar alguns custos que eram realmente inchaços de empresa estatal", afirma.
Segundo ele, a companhia deixou de funcionar como "vários feudos embaixo de uma empresa" e passou a operar de forma mais integrada, reduzindo despesas com pessoal e terceiros.
Universalização até 2029: gargalo operacional e confiança dos analistas
Giuliano Ajeje, analista de Utilities do UBS BB, recorda que, antes da reforma que levou ao Novo Marco do Saneamento, cerca de 94% da população era atendida por estatais, com aproximadamente 15% dos brasileiros sem acesso à água tratada e 50% sem coleta e tratamento de esgoto.
"Nós tínhamos 15% da população sem acesso à água. Significa uma população do Canadá, dentro do Brasil, sem acesso à água. Nós tínhamos 50% da população sem acesso a esgoto. Uma população da Rússia, dentro do Brasil, sem acesso a esgoto", destaca Ajeje.
Na visão dele, a combinação de falta de investimentos, indefinições sobre o poder concedente em regiões metropolitanas, baixa coordenação entre municípios e pouco incentivo político formavam um cenário de precariedade do setor, que respingava em outras esferas da sociedade.
"Quando você traz o saneamento, você traz melhora na educação simplesmente porque a pessoa passa a ter água tratada em casa", afirma o analista.
Para Filipe Andrade, do BBA, a execução do plano de investimentos atrelado à universalização do acesso ao saneamento é um dos aspectos mais relevantes para o sucesso da tese da Sabesp, em particular dadas as penalidades contratuais existentes no caso de falhas em cumprir com as metas de universalização.
"Temos bastante confiança na capacidade da empresa em gerenciar esse risco. Desde sua privatização, a empresa expandiu sensivelmente o número de contratantes para executar seu plano de investimentos, tendo garantido já a contratação de um volume total de investimentos de cerca de R$ 39 bilhões", afirma ele.
Ajeje, do UBS BB, concorda, apontando a aceleração dos investimentos como um legado dos primeiros anos de privatização. Uma questão, no entanto, era se a companhia conseguiria equilibrar uma aceleração do dinheiro desembolsado com a continuidade da rentabilidade da empresa. Para isso, o analista retoma o destaque para a mudança regulatória.
Pela regra antiga, os investimentos só começavam a ser remunerados quatro anos depois de realizados. Com o novo modelo, até 2029 a remuneração ocorre anualmente, reduzindo a pressão financeira sobre a companhia em meio ao ritmo mais intenso de obras.
Riscos no radar: capacidade de executar e metas de expansão
Para o gestor Gustavo Fabricio, da RPS Capital, dois fatores merecem acompanhamento, sendo o primeiro a capacidade de manter o ritmo de investimentos previsto no contrato de concessão. O segundo é o cumprimento das metas de expansão do serviço em áreas periféricas, que são monitoradas pelo governo e podem resultar em penalidades tarifárias em caso de descumprimento. "Este é o risco que o mercado vai acompanhar com lupa", diz.
O Novo Marco Legal do Saneamento Básico (Lei nº 14.026/2020) estabeleceu a meta de universalizar os serviços de água e esgoto no Brasil até 2033. A legislação exige licitação obrigatória para novos contratos, abrindo espaço para investimentos privados, e centraliza a regulação na Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).
No caso da Sabesp, a companhia paulista se comprometeu a endereçar a questão da universalização até 2029. Para o BBA, a empresa deverá cumprir integralmente o cronograma, com altas probabilidades de algumas regiões do interior de São Paulo atingirem a universalização antes dessa data.
Giuliano Ajeje, do UBS BB, avalia que, apesar do otimismo, o principal gargalo deixou de ser financeiro e passou a ser operacional. "Hoje o gargalo é obra. São 1.200 canteiros de obras", afirma.
Ele explica que a companhia precisou primeiro ampliar a capacidade de tratamento de água e esgoto para, somente depois, iniciar a conexão dos novos consumidores, processo que justifica o grande volume de intervenções espalhadas pelo Estado.
A visão dele, apesar de um cenário de execução desafiador, é de que a companhia conseguirá cumprir o cronograma. "Eu acredito que a Sabesp vai cumprir a meta. Missão dada é missão cumprida", diz.
Para o analista do Itaú BBA, a Sabesp privatizada conta com posição de liderança no segmento, solidez de balanço e crescimento consistente.
Perguntas Frequentes
Qual foi o valor movimentado na privatização da Sabesp?
A operação movimentou R$ 14,8 bilhões, com o Estado de São Paulo reduzindo sua participação de 50,3% para 18,3%.
Quanto a Equatorial investiu na Sabesp?
A Equatorial (EQTL3) adquiriu 15% das ações por R$ 6,9 bilhões, tornando-se investidora de referência.
Qual é a meta de universalização da Sabesp?
A companhia se comprometeu a universalizar os serviços de água e esgoto até 2029, quatro anos antes do prazo do Novo Marco Legal do Saneamento (2033).
Quais são os principais riscos apontados por analistas?
Os riscos incluem a capacidade de manter o ritmo de investimentos e o cumprimento das metas de expansão em áreas periféricas, que podem gerar penalidades tarifárias.
Como a aquisição da Emae ajuda a Sabesp?
A Emae opera reservatórios estratégicos como Billings e Guarapiranga, permitindo à Sabesp unificar a gestão da infraestrutura hídrica, especialmente em situações críticas.
Quanto a Sabesp investiu em 2025 e qual a projeção para 2026?
Em 2025, a empresa investiu R$ 15,2 bilhões, alta de 120% sobre 2024. Para 2026, a projeção é de R$ 20 bilhões, focados na expansão do sistema de esgotamento sanitário.
