Analistas do Bank of America (BofA) apontam que um ciclo mais intenso de redução da taxa Selic pode favorecer ações de empresas com receitas previsíveis, forte geração de caixa e alta sensibilidade aos juros. Segundo o banco, esse grupo tende a se beneficiar caso o Banco Central (BC) mantenha o ritmo de cortes até o fim de 2027. A Selic meta permanece em 14,00% ao ano, patamar que ainda sustenta a atratividade da renda fixa, mas que, em queda, muda a lógica de comparação entre os produtos.
Quando os juros caem, o valor presente dos fluxos de caixa futuros aumenta. É por isso que o BofA destaca as chamadas "proxies de títulos", empresas que oferecem rendimentos previsíveis e são frequentemente comparadas a investimentos de renda fixa. Eu, que acompanho renda fixa há anos, vejo essa relação de perto: entender o juro é metade do investimento, e é ele que dita o quanto cada produto entrega.
Entre todas as ações analisadas, a Equatorial (EQTL3) e a Ecorodovias (ECOR3) aparecem como as maiores apostas para um cenário de afrouxamento monetário mais profundo. Segundo o BofA, a Equatorial reúne uma combinação atraente de crescimento e sensibilidade às taxas: duração de fluxo de caixa estimada em cerca de 12 anos, TIR real próxima de 12% e potencial de capturar valor com aquisições no setor de distribuição de energia e possíveis melhorias regulatórias. "A empresa é hoje uma das concessionárias mais expostas aos benefícios de juros menores no curto prazo", apontam os analistas.
Já a Ecorodovias surge como a oportunidade mais descontada dentro do universo de concessões, com TIR real estimada em aproximadamente 17%, a mais elevada entre os nomes acompanhados pelo banco. A companhia pode ter reprecificação relevante caso os cortes da Selic sejam mais rápidos ou mais profundos do que o mercado espera.
Para quem busca proteção sem abrir mão do ganho potencial com a queda dos juros, o banco destaca duas empresas. No setor elétrico, a preferência é pela Isa Energia (ISAE4), que combina retorno real estimado em cerca de 10% com potencial adicional de valorização superior a 15% caso solucione seu passivo previdenciário, evento esperado para os próximos anos. Em concessões rodoviárias, a escolha é a Motiva (MOTV3), que negocia com TIR real próxima de 11% e pode ser beneficiada por revisões contratuais e discussões de reequilíbrio regulatório.
Outra empresa que chama atenção do BofA é a Axia Energia (AXIA3). Os analistas afirmam que a companhia consegue performar tanto em cenários de maior apetite por risco quanto em momentos mais defensivos. O principal atrativo está no dividend yield projetado, entre 11% e 15% para 2026 e 2027, além da menor duração dos fluxos de caixa, característica que reduz parte dos riscos típicos de empresas de infraestrutura.
Apesar da previsibilidade dos resultados, o setor de shopping centers perdeu parte do brilho. O relatório destaca que as empresas continuam entregando números financeiros robustos, mas apresentam desaceleração operacional que reduz as chances de uma forte reavaliação em Bolsa. Mesmo assim, a Allos (ALOS3) permanece como a favorita do segmento, com dividend yield estimado em 13%, considerado atrativo entre os pares.
O banco também mantém visão cautelosa para telecomunicações. Embora os papéis da Telefônica (VIVT3) e da TIM (TIMS3) tenham sofrido correções recentes, os analistas consideram que os múltiplos ainda não ficaram suficientemente baratos para justificar uma recomendação mais positiva.
Para o investidor conservador, a leitura prática é comparar prazos e liquidez. Um CDB com liquidez diária e um título com vencimento em 2027 reagem de formas diferentes à queda da Selic. Se o ciclo de cortes se confirmar, a renda fixa pós-fixada perde atratividade relativa, enquanto produtos prefixados e ações sensíveis a juros ganham espaço. Não se trata de abandonar a segurança, mas de entender que cada objetivo pede um produto diferente.