O Bank of America (BofA) reiterou em relatório de 11 de setembro a recomendação de underperform, equivalente à venda, para as ações da São Martinho (SMTO3) e da SLC Agrícola (SLCE3). A disparada das commodities agrícolas não foi suficiente para alterar a visão do banco sobre as duas companhias.
Na avaliação das analistas Isabella Simonato e Julia Zaniolo, a valorização dos grãos e do açúcar ajuda, mas o câmbio segue como a principal variável para impulsionar revisões das projeções. O cenário-base do banco, de R$ 5 por dólar, limita esse espaço no curto prazo.
O que o câmbio muda nos números
Para dimensionar o peso de cada variável, o BofA simulou o efeito da atualização das projeções pelos preços de mercado dos grãos e do açúcar para 2027, exercício fiscal de 2028 da São Martinho. Mantidas as demais condições, o ajuste elevaria o Ebitda da São Martinho em 10% e o da SLC Agrícola em 7%.
Já a inclusão de um dólar a R$ 6 acrescentaria alta de 40% e 29%, respectivamente, ao Ebitda das companhias. O exercício mostra como uma desvalorização do real ampliaria o benefício das commodities mais caras. Não é, porém, o cenário central do banco.
A análise vem após alta de aproximadamente 12% das commodities agrícolas em dólares desde o início de agosto. Segundo o BofA, o movimento combina petróleo mais caro, aumento das apostas dos investidores na valorização das matérias-primas e balanços de oferta e demanda mais apertados, especialmente para milho e açúcar.
Milho, soja, açúcar e algodão: o que o relatório aponta
Entre os grãos, o milho tem o quadro mais favorável. A relação global entre estoques e consumo está projetada em 20,6% na safra 2026/27, o menor nível desde 2012/13, segundo o relatório de oferta e demanda do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) citado na análise. Nesse contexto, o BofA vê sustentação para preços entre US$ 5,50 e US$ 6 por bushel.
A soja tem margem de segurança maior. Sua relação entre estoques e consumo está em 28%, em linha com a média de dez anos, e a produtividade nos Estados Unidos permanece próxima das expectativas iniciais. Os riscos se concentram na produção sul-americana sob influência do El Niño.
No açúcar, o atraso da moagem de cana no Brasil por condições climáticas adversas e as monções mais fracas na Ásia sustentam os preços. Boa parte desses fatores já está incorporada às cotações, segundo o BofA. Uma moagem brasileira mais lenta poderia levar os preços a níveis moderadamente superiores a 20 centavos de dólar por libra-peso.
Para o algodão, a oferta mais apertada e o encerramento de posições vendidas favorecem as cotações no curto prazo. A commodity tem prêmio de 40% sobre o poliéster, abaixo da média histórica de 52%. O banco vê potencial limitado de valorização adicional, com preços em torno de 90 centavos de dólar por libra-peso.
O quadro geral, portanto, é de matérias-primas mais caras, mas de dependência do câmbio para revisões maiores nos resultados de São Martinho e SLC Agrícola.