O desenvolvimento de variedades agrícolas resilientes às mudanças climáticas ajuda a mitigar parte dos efeitos da sazonalidade sobre a inflação, avalia André Braz, coordenador dos Índices de Preços da FGV IBRE. Ele cita a Embrapa, que aprimora cultivares como um tipo de milho que demanda 25% menos água, permitindo cultivo em condições adversas.
"Esse avanço tecnológico contribui para atenuar a sazonalidade na produção, uma vez que possibilita a colheita em ambientes anteriormente inóspitos, o que tende a estabilizar os preços. Todavia, essa estabilidade depende da frequência de eventos climáticos extremos. Caso fenômenos como o El Niño se tornem recorrentes, as projeções de regularidade ficam severamente comprometidas", alerta Braz.
Além do clima, tensões geopolíticas, como o conflito entre Rússia e Ucrânia e instabilidades no Oriente Médio, pressionam os mercados e mascaram a sazonalidade tradicional dos alimentos, acrescenta o economista. "Embora o ciclo natural dos produtos ainda exista, a combinação de inovações tecnológicas, como cultivo em ambientes controlados e aprimoramento genético, com a dinâmica da logística global tem alterado nossa percepção sobre essas oscilações."
Heron do Carmo, professor sênior da FEA-USP, vê o menor protagonismo da sazonalidade como reflexo de mudanças nos padrões de consumo e da maior abertura econômica. Ele destaca que a sofisticação da produção agrícola e a integração do mercado nacional mitigaram impactos regionais, como os que afetavam feijão e batata. "O avanço tecnológico permitiu a expansão de novas fronteiras, como a fruticultura no Nordeste, que abastece todo o País", pontua.
O professor também cita a pecuária: o confinamento substituiu a extensiva, reduzindo a alta histórica dos preços da carne bovina no inverno. Ainda assim, ciclos de longo prazo persistem, e a volatilidade atual é global. "Fenômenos como o El Niño impactam a produção mundial, como a alta do azeite por secas na Europa e a valorização do café por quebras no Brasil e no Vietnã", afirma.
Os dados recentes do IPCA mostram variação mensal de 0,07% em julho de 2026 e 0,16% em junho (Banco Central), sugerindo que, por ora, a estabilidade prevalece. inflação de alimentos no Brasil