Os brasileiros mais ricos passaram a concentrar uma fatia recorde da renda nacional sob o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo dados extraídos de declarações de Imposto de Renda. O movimento oferece um contraponto ao esforço do governo em mostrar que os ganhos econômicos foram distribuídos, enquanto Lula busca a reeleição em outubro.
Os dados tributários, porém, pintam um quadro mais complexo: juros elevados, em parte consequência do aumento dos gastos públicos, alimentaram um boom da renda financeira que beneficiou de forma desproporcional os mais ricos. Isso ocorreu mesmo enquanto o mercado de trabalho mais forte, ganhos salariais reais e programas sociais robustecidos melhoraram as condições na base da distribuição.
Estimativas do pesquisador Sergio Gobetti, com base na abertura de dados do IR pela Receita Federal, mostram que o 0,1% mais rico elevou sua participação na renda nacional para um recorde de 13,1% em 2024, ante 10,2% em 2020. Nesse período, o Banco Central elevou a Selic de 2% para 12,25%, e hoje a taxa está em 14%.
Como metade da dívida pública está atrelada à Selic por meio das Letras Financeiras do Tesouro Nacional (LFTs), juros mais altos se traduzem em maiores retornos para investidores. "Quanto mais eu subo os juros, mais renda o detentor da LFT tem", disse o presidente do BC, Gabriel Galípolo, ao Senado em maio.
A arrecadação sobre rendimentos de fundos de investimento e outros ativos de renda fixa disparou 325% entre 2020 e 2024, alcançando R$ 92,1 bilhões, segundo análise da Reuters sobre dados da Receita. O salto superou o avanço da arrecadação sobre rendimentos do trabalho. A Receita reconheceu que a explosão ocorreu "principalmente em razão da elevação da taxa Selic".
O fenômeno não é exclusivo do governo Lula: ocorreu também sob Jair Bolsonaro. Mas ganhou força com a aceleração da dívida pública, que subiu mais de 10 pontos percentuais do PIB desde 2023, para 82,5%. O Tesouro projeta que as LFTs podem chegar a 53% da dívida neste ano.
Para quem investe em renda fixa, o cenário tem dois lados. De um lado, os juros altos seguem favorecendo aplicações atreladas à Selic, como Tesouro Selic e CDBs pós-fixados. De outro, a concentração de renda no topo limita o efeito do crescimento para a maioria. A Selic, hoje em 14%, deve recuar só para 12% ao fim do próximo ano, segundo pesquisa do BC. Ou seja, o impulso aos rendimentos financeiros não deve desaparecer tão cedo.
O Ministério da Fazenda afirmou que os juros elevados provavelmente contribuíram para o aumento da arrecadação, mas ponderou que os dados tributários não estabelecem relação causal definitiva. A pasta disse que adota desde 2023 medidas para reduzir a desigualdade por meio de maior justiça tributária. O Banco Central não comentou o assunto.