A polarização entre lulismo e bolsonarismo e a ascensão das redes sociais empurraram os debates entre candidatos a um segundo plano nas eleições presidenciais. Esse foi o tema central da quinta edição do Radar das Eleições, programa do Money Times apresentado por Paula Comassetto, com participação de Gustavo Porto, editor de Política, e do cientista político Henrique Curi, consultor da Metapolítica Consultoria.
Para Curi, os debates tradicionais mudaram de função. Em vez de conquistar indecisos, funcionam cada vez mais como palco para candidatos reforçarem posições já consolidadas e produzirem conteúdo para as redes sociais. "As redes sociais acabam potencializando esse caráter do debate eleitoral, que prega para convertido", afirmou. A lógica dos algoritmos contribui: as plataformas entregam conteúdo alinhado às preferências de cada usuário, criando as chamadas "câmaras de eco", com exposição menor a opiniões divergentes.
Nesse cenário, o debate importa menos pelo conteúdo integral e mais pelos trechos que repercutem depois. "No debate eleitoral, às vezes um debate muito extenso, o que o candidato precisa é também gerar conteúdo para as redes sociais", disse Curi. Isso ajuda a explicar a ausência de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro no debate do Grupo Bandeirantes no último domingo (23), que abriu o calendário do ano. Para Curi, a estratégia faz sentido para quem já tem eleitorado consolidado: "Todos os outros candidatos querem tirar voto dele". Já Romeu Zema, menos conhecido nacionalmente, teria pouco a perder e poderia usar o palco para nacionalizar seu nome.
O programa também discutiu a crise de identidade do PSDB. Pela segunda eleição consecutiva, o partido não terá candidato à Presidência, e, de forma inédita, não indicou candidato ao governo de São Paulo, onde nasceu. Curi, que estuda o partido, rejeita explicações que culpem nomes como João Doria ou Aécio Neves. "Não existe uma única variável, um único fator, é multifatorial, e é um processo", afirmou. Ele aponta a eleição de 2002 como momento decisivo, quando o PSDB adotou o discurso de "mudança" em vez de explorar o legado de Fernando Henrique Cardoso. Em 2017, a legenda reformulou a identidade visual, trocando o tucano pela bandeira do Brasil, mas "não deu certo".
Enquanto cerca de 20% do eleitorado se identifica como petista, o PSDB não criou identificação semelhante. A disputa se estruturou em torno de petismo e antipetismo, e o partido não ocupou o espaço de alternativa. Em 2018, candidatos tucanos a governos estaduais apoiaram Jair Bolsonaro no primeiro turno, em vez de seguir Geraldo Alckmin. Curi pergunta: "Qual a diferença do PSDB hoje para o PSD, para o União Brasil?" A reconstrução no curto prazo parece difícil. análise política