A vitória da extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) na Saxônia-Anhalt pode dar pistas de como o partido pensa o país. No domingo (6), a legenda conquistou 43,8% dos votos, garantindo a maior delegação do parlamento estadual e abrindo caminho para Ulrich Siegmund se tornar o primeiro governador da direita populista desde o pós-Guerra. O cargo ainda não está garantido, mas o programa de governo já expõe prioridades que podem ecoar na Alemanha.
O plano da AfD para a Saxônia-Anhalt prevê uma ofensiva de deportação financiada com cerca de 100 milhões de euros. A operação deve envolver o ministro do Interior e o da Justiça, com voos fretados saindo da região. O alvo inicial são estrangeiros considerados "criminosos e indivíduos que representam risco". Também estão previstas sanções e cortes de verbas para funcionários ou organizações que ajudem estrangeiros com pedido de asilo negado.
A imigração guiou a campanha, e a Saxônia-Anhalt está entre os estados que mais receberam imigrantes na crise de 2015: cerca de 34 mil pedidos de asilo, aproximadamente 1,5% da população local. Segundo o Ministério do Trabalho, Assuntos Sociais e Integração do estado, foi o maior número já registrado.
Siegmund também quer retirar a Saxônia-Anhalt da rede pública regional de radiodifusão, citando "desinformação". O partido defende o ensino domiciliar, proibido hoje na Alemanha, e quer proibir que escolas hasteiem a bandeira arco-íris, que, segundo a legenda, "representa a desvalorização da família". A bandeira nacional seria obrigatória.
No plano internacional, a AfD se opõe ao envio de dinheiro de contribuintes à Ucrânia e pressionaria pelo fim das sanções à Rússia, decisão que cabe ao nível federal. Mesmo com posições pró-Rússia e anti-imigração, Siegmund evita declarações extremas e se apresenta como um homem do povo. Mas ele é intransigente: após a eleição, afirmou que o partido não vai "abrir mão de nossas posições em prol de coalizões".
Apesar da vitória, Siegmund precisa de apoio para governar. A AfD tem 39 cadeiras, menos que as 42 necessárias para maioria absoluta. Os deputados devem se apresentar até 30 dias após a eleição, com a primeira sessão podendo ocorrer até 6 de outubro. No cenário atual, a CDU tem 15 cadeiras, Die Linke, SPD e Verdes têm 8 cada, e o BSW, 5. Uma coalizão improvável pode envolver a BSW, de Sahra Wagenknecht, que já sinalizou pontos de convergência.
O desfecho depende de partidos quebrando o Brandmauer, o cordão sanitário contra a extrema direita. Para quem acompanha a política alemã, o caso mostra como a AfD, criada em 2013, pode influenciar o debate nacional. eleições na Alemanha extrema direita na Europa