A inflação brasileira entrou em uma nova fase, mais difícil de ser combatida. É o que aponta um relatório do UBS BB, que avalia que a alta dos preços deixou de refletir apenas choques temporários, como oscilações em alimentos, combustíveis e câmbio, e passou a apresentar uma característica mais estrutural. Essa mudança ajuda a explicar por que o IPCA deve encerrar 2026 acima da meta pelo terceiro ano consecutivo e por que o processo de desinflação tem sido mais lento do que em ciclos anteriores.
Segundo o UBS BB, a inflação brasileira pode não voltar à meta no curto prazo porque o problema ganhou um componente de persistência. O banco destaca que a inflação passou a depender mais da sua própria trajetória, com aumentos de preços de meses anteriores influenciando com mais intensidade os reajustes futuros. Isso torna o trabalho do Banco Central mais complexo para trazer a inflação de volta ao centro da meta.
O que mudou na dinâmica da inflação brasileira?
O relatório do UBS BB, assinado pelas economistas Solange Srour, Débora Nogueira e Victoria Brant Roquetta, aponta que a inflação brasileira não apenas permaneceu elevada por causa da sucessão de choques recentes, mas também passou a apresentar maior inércia. Essa mudança se manifesta em três frentes principais:
- Maior peso da inflação passada na Curva de Phillips
- Evidências estatísticas de instabilidade desse parâmetro
- Transmissão mais duradoura de choques de alimentos e combustíveis para os núcleos de inflação
"O argumento central deste estudo é que a inflação brasileira não apenas permaneceu elevada em razão da sucessão de choques recentes, mas também passou a apresentar maior inércia", afirmam as economistas no relatório.
Como a inflação passada influencia a inflação futura?
As evidências apresentadas pelo UBS BB apontam que essa mudança ganhou força a partir de 2022. As estimações recursivas da Curva de Phillips mostram que a influência da inflação passada sobre a inflação corrente aumentou de forma consistente no período pós-pandemia, sobretudo desde 2022. Isso significa que a inflação passou a depender mais da sua própria trajetória: os aumentos de preços ocorridos nos meses anteriores passaram a influenciar com mais intensidade os reajustes futuros, tornando a inflação mais persistente.
Choques de alimentos e combustíveis têm efeito maior hoje?
Sim, segundo o modelo VAR desenvolvido pelo UBS BB. O estudo mostra que choques em alimentos e combustíveis passaram a produzir efeitos mais persistentes sobre os núcleos de inflação do que no período pré-pandemia. "A resposta posterior apresenta dissipação mais lenta e permanece relevante por um número maior de trimestres", destaca o estudo. Isso significa que, quando um choque de oferta ocorre, seu impacto sobre os preços dura mais tempo.
Por que as expectativas de inflação estão desancoradas?
Na avaliação dos economistas, a desancoragem das expectativas de inflação ajuda a explicar esse processo. Quando empresas e trabalhadores deixam de acreditar que a inflação retornará rapidamente à meta, reajustes provocados por choques temporários passam a ser incorporados com maior intensidade aos preços e salários. Isso cria um ciclo em que a inflação se realimenta.
O papel da dívida pública na persistência inflacionária
O UBS BB também chama atenção para o quadro fiscal. O banco avalia que a dívida bruta projetada para o fim de 2026 está 11,6 pontos percentuais do PIB acima do nível observado no quarto trimestre de 2022, período que coincide com o início do terceiro episódio de desancoragem das expectativas desde 2002. Embora o estudo não estabeleça uma relação causal, os economistas avaliam que "a hipótese mais provável é que a deterioração fiscal contribui para uma inflação corrente mais elevada e reforça o mecanismo de persistência".
O que isso significa para os juros e a Selic?
De acordo com o UBS BB, um ambiente de maior persistência inflacionária reduz o espaço para cortes de juros e exige condições monetárias restritivas por mais tempo. "Isso não significa que a política monetária tenha perdido eficácia, mas que seu trabalho se torna mais complexo", diz a equipe, acrescentando que choques mais duradouros e expectativas menos ancoradas "tendem a exigir condições monetárias restritivas por mais tempo".
O banco relembra que o mercado, segundo o Boletim Focus, projeta a Selic em 14% ao fim de 2026, enquanto a inflação deve permanecer acima do centro da meta. Já o próprio banco possui uma média estatística que apresenta uma taxa em 12,75%, considerando o cenário mais otimista e mais pessimista.
Perguntas Frequentes
O que é a Curva de Phillips?
É um modelo econômico que relaciona inflação e desemprego. No relatório do UBS BB, a Curva de Phillips é usada para medir o peso da inflação passada sobre a inflação corrente.
O que significa inflação inercial?
É quando a inflação passada influencia os reajustes futuros, criando um ciclo de realimentação. O UBS BB aponta que esse mecanismo se fortaleceu no Brasil.
Qual a projeção do mercado para a Selic em 2026?
Segundo o Boletim Focus, o mercado projeta a Selic em 14% ao fim de 2026.
O que são núcleos de inflação?
São medidas que excluem itens mais voláteis, como alimentos e combustíveis, para capturar a tendência de longo prazo dos preços.
A política monetária perdeu eficácia?
O UBS BB afirma que não, mas que o trabalho do Banco Central se tornou mais complexo, exigindo juros altos por mais tempo.