Juros longos dos EUA atingem máxima em 18 anos após Fed manter juros pela 5ª vez consecutiva
Os rendimentos do título do Tesouro dos Estados Unidos de 30 anos, o Treasury, atingiram 5,244% nesta quarta-feira (29), o maior nível desde julho de 2007. O movimento veio após a decisão do Federal Reserve (Fed) de manter os juros inalterados na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano pela quinta vez consecutiva.
Os rendimentos dos Treasuries de 2 anos, de curto prazo, recuaram levemente, enquanto o dólar perdeu força. A inclinação da curva refletiu as incertezas dos investidores sobre a capacidade do Fed de manter a inflação sob controle, em meio ao recuo nas apostas de alta nos juros na próxima decisão, em setembro.
Por que os juros longos subiram?
Marcos Mollica, gestor da SPX Capital, afirmou em nota que a reação da curva foi condizente com a falta de clareza sobre o que o Fed espera para apertar a política monetária. Houve um forte steepening, com a ponta curta (2 anos) fechando cerca de 10 pontos-base e a ponta longa (30 anos) abrindo outros 10 pontos-base, em direções opostas. O movimento foi puxado pela combinação entre uma ponta curva ancorada e uma ponta longa exigindo mais prêmio por risco de inflação e de credibilidade.
O comunicado do Fed não trouxe novidades: reconheceu que a atividade econômica segue "sólida", a inflação permanece "elevada" e reiterou o compromisso com a estabilidade de preços. William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue Securities, avaliou que a comunicação foi "muito simples e enxuta, sem dar um forward guidance sobre possíveis movimentos em setembro".
Dissenso no Fed e a sinalização de Warsh
A decisão, já esperada pelo mercado, não foi unânime. Beth Hammack (Fed de Cleveland), Neel Kashkari (Fed de Minneapolis) e Lorrie Logan (Fed de Dallas) defenderam uma alta de 25 pontos-base, marcando o maior dissenso desde setembro de 2016. Os três dirigentes já haviam defendido, na reunião de abril, a retirada do viés de flexibilização monetária do comunicado.
Na coletiva de imprensa, o presidente do Fed, Kevin Warsh, afirmou que conseguiu uma "boa discussão familiar" na reunião, mas ressaltou que o Comitê optou pela estabilidade por uma "ampla maioria". Warsh destacou os níveis mais elevados dos juros nominais e reais dos títulos públicos, sugerindo que parte do aperto das condições financeiras já foi promovida pelo próprio mercado. Ainda assim, reforçou que, caso a inflação não desacelere, o Fed poderá voltar a elevar os juros: "Não hesitaremos em agir", disse.
O que esperar da próxima reunião?
Antes da decisão, o mercado precificava cerca de 35% de probabilidade de 25 pontos-base, segundo a ferramenta FedWatch do CME Group. Após o fechamento dos mercados regulares, a ferramenta apontava 63,4% de chance de o Fed elevar os juros em 0,25 ponto-base na próxima reunião. No dia anterior (28), a chance era de 76%, sendo 55,8% de alta de 0,25 ponto percentual e 20,2% de aumento de 0,50 ponto percentual.
Para o banco ING, os argumentos para uma alta eram claros: o Fed não atinge sua meta de inflação há cinco anos e, embora tenha havido progresso, os preços do petróleo continuam elevados em um mercado de trabalho apertado. James Knightley, economista-chefe internacional, e Chris Turner, líder global de Mercados do ING, avaliaram que "uma alta também serviria para reforçar o compromisso do novo presidente do Fed com o combate à inflação e ajudaria a ancorar os juros dos Treasuries de longo prazo".
André Valério, economista sênior do Inter, destacou que a dinâmica inflacionária até setembro será determinante. "Com a incerteza do conflito no Oriente Médio e o preço do petróleo rondando os US$ 100 por barril, podemos ver a inflação não ceder o suficiente, o que poderia levar mais membros do Fomc a votar por uma alta na próxima reunião."
O que são os Treasuries?
Os Treasuries são os títulos da dívida do governo norte-americano, considerados o ativo mais seguro do mundo porque os EUA nunca deram calote na história. Ao comprar Treasuries, o investidor empresta dinheiro ao governo dos EUA com a perspectiva de receber retorno financeiro em um determinado período, a uma taxa negociada diariamente.
Assim como os títulos do Tesouro brasileiro, os Treasuries têm diferentes vencimentos. Os mais relevantes são os de 2 anos (mais sensível à política monetária), de 10 anos (referência para empréstimos imobiliários, financiamento de veículos e dívidas de cartão de crédito) e de 30 anos (referência para hipotecas de longo prazo).
As taxas, chamadas de yields (rendimentos), variam conforme a perspectiva dos investidores para a trajetória da taxa de juros dos EUA. Um ponto-base equivale a 0,01% do yield, e os rendimentos e os preços movem-se em direções opostas.
Perguntas Frequentes
O que fez o Treasury de 30 anos atingir máxima em 18 anos?
Após o Fed manter os juros inalterados pela quinta vez consecutiva, os rendimentos do Treasury de 30 anos subiram a 5,244%, maior nível desde julho de 2007. O movimento refletiu incertezas sobre a inflação e a credibilidade da política monetária.
O Fed vai subir os juros em setembro?
Após a decisão, o mercado precificava 63,4% de chance de alta de 0,25 ponto-base. A dinâmica inflacionária até lá será determinante.
Quem votou contra a manutenção dos juros?
Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorrie Logan defenderam uma alta de 25 pontos-base, marcando o maior dissenso desde setembro de 2016.
O que o presidente do Fed disse sobre a inflação?
Kevin Warsh afirmou que o Fed não hesitará em agir se a inflação não desacelerar, mas destacou que parte do aperto já foi promovida pelo mercado.
Como os Treasuries afetam o dólar?
Os títulos ajudam a estabelecer o valor do dólar no mercado internacional. Quando os rendimentos sobem, o dólar tende a se fortalecer.