Os islandeses votaram por permanecer fora da União Europeia, mostraram neste domingo (30) os resultados de um referendo. A rejeição à iniciativa do governo de retomar as negociações de adesão alinhou-se aos que argumentavam que as águas pesqueiras da Islândia eram importantes demais para serem colocadas em risco.
No referendo de sábado, 52,8% dos votos foram contra a proposta do governo de realizar negociações com Bruxelas, 47,2% foram a favor, e 82,5% dos eleitores qualificados participaram. Das seis circunscrições eleitorais, apenas as duas na região central de Reykjavik tiveram maioria a favor, enquanto as áreas rurais e os subúrbios da capital votaram contra.
A primeira-ministra Kristrun Frostadottir afirmou em coletiva de imprensa que a Islândia se concentraria em fortalecer seus laços existentes com a União Europeia por meio do Acordo do Espaço Econômico Europeu, que o país compartilha com a Noruega e Liechtenstein. "Uma grande lição para mim e também para o governo é que as pessoas estão satisfeitas com o Acordo do EEE", disse ela. Frostadottir agora planeja ligar para o primeiro-ministro da Noruega, informou a emissora pública RUV.
O resultado interrompe um debate que dura mais de uma década. A ilha ártica de 400 mil habitantes solicitou adesão à UE pela primeira vez em 2009, após a crise financeira, mas um governo eurocético encerrou as negociações em 2013. O governo havia apresentado a adesão como um escudo contra guerras comerciais e rivalidades no Ártico, caracterizando o referendo como um momento de "agora ou nunca". Frostadottir afirmou que o "não" encerraria o debate enquanto sua coalizão de centro-esquerda estivesse no poder.
A pesca foi decisiva. O setor é um dos maiores da Islândia, representando 15% do Produto Interno Bruto em contribuições diretas e indiretas e cerca de 40% da receita de exportação. Para alguns islandeses, a pesca pesava mais do que a segurança, mesmo com a Islândia sendo um Estado-membro da Otan, sem Exército próprio, e com o presidente dos EUA, Donald Trump, colocando em dúvida o compromisso americano com a aliança militar.
Antes do referendo, as finanças voltaram ao centro do debate, com alta inflação e taxas de juros elevadas. A taxa do banco central islandês é de 8%, contra 2,25% do Banco Central Europeu. Mas Vilborg Asa Gudjonsdottir, pesquisadora da Universidade da Islândia, disse à Reuters que os altos salários compensaram o impacto econômico para a maioria: "Não há urgência econômica para a Islândia aderir à União Europeia". A líder da oposição, Gudrun Hafsteinsdottir, que liderou a campanha pelo "não", reforçou: "Esses não são problemas que Bruxelas resolverá para nós".
Em Bruxelas, um porta-voz da Comissão Europeia afirmou que respeita a escolha do povo islandês e observou que a Islândia continua sendo um parceiro próximo. Um diplomata da UE, porém, classificou o resultado como "um claro revés para Bruxelas", citando pesca e independência como fatores decisivos. O governo islandês agora deve concentrar-se no fortalecimento dos laços via EEE, sem novo capítulo no processo de adesão no curto prazo.