Brasília e Akhetaton, cidade planejada no Egito Antigo no século XIV a.C., são frequentemente comparadas por traços urbanísticos e arquitetônicos. Quem observa a capital do alto ou percorre o Eixo Monumental encontra orientação ao leste, um grande lago artificial e construções que remetem a templos e pirâmides.
A associação ganhou força com o próprio fundador de Brasília. Juscelino Kubitschek, em seu livro de memórias "Meu Caminho para Brasília", conta que visitou o sítio arqueológico de Tell el-Amarna, onde ficavam as ruínas de Akhetaton, quando era estudante de medicina em viagem pelo Egito. Ele escreveu: "Levado pela admiração que tinha por esse autocrata visionário, Akhenaton, cuja existência quase lendária eu me surpreendera através das minhas leituras em Diamantina, aproveitei minha estada no Egito para fazer uma excursão até o local, onde existira Tell El-Amarna/Akhetaton... Vi os alicerces da que havia sido a capital do Médio Império do Egito." Décadas depois, já presidente, JK mencionaria a experiência entre as referências que ajudaram a amadurecer a ideia de transferir a capital.
As comparações começam pelo desenho. Akhetaton foi planejada com orientação para o nascente, ligada ao simbolismo religioso de Akhenaton. Em Brasília, o traçado de Lúcio Costa também se desenvolve ao leste, com curvas que viraram um avião ou pássaro. A água é outro ponto: as duas cidades foram implantadas em regiões de baixa umidade e dependeram de reservatórios. No caso brasileiro, o Lago Paranoá foi planejado na construção; no Egito, a associação é com o Lago Moeris, ligado ao Nilo. As capitais também foram erguidas em ritmo acelerado: Akhetaton surgiu em poucos anos, enquanto Brasília foi construída entre 1956 e 1960.
Na arquitetura, o Memorial JK é comparado às mastabas, construções funerárias de base larga. A Catedral Metropolitana, com percurso do escuro à luz natural, remete aos templos solares egípcios. Formas piramidais aparecem no Teatro Nacional e no Templo da Boa Vontade.
Apesar disso, não há consenso sobre influência direta. A Fundação Oscar Niemeyer afirma que o arquiteto não esteve no Egito antes de conceber os prédios e que suas referências eram o modernismo e Le Corbusier. Documentos do Iphan e registros de Lúcio Costa indicam que o plano nasceu de uma cruz adaptada ao relevo, seguindo a Carta de Atenas. Para historiadores, a visita de JK e sua admiração por Akhenaton são fatos documentados; as semelhanças permanecem abertas à interpretação.