A Afya está acostumada a aprovações rápidas no Cade, mas a possível combinação com a Yduqs cria sobreposições relevantes no mercado de medicina. Há nove anos, a Yduqs, então Estácio, viu o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) barrar sua venda para a Kroton, atual Cogna. Agora, o fantasma daquele negócio volta a rondar a companhia, com a medicina no centro da discussão.
Afya e Yduqs são as duas maiores plataformas privadas de medicina do país. Juntas, têm cerca de 18% das vagas nacionalmente, segundo levantamento do EXAME Insight. Mas a concentração cresce quando a lupa desce para mercados locais. No Rio de Janeiro e em Teresina, a combinação reuniria mais da metade das vagas privadas. Em Ji-Paraná (RO), as duas controlam todas as vagas autorizadas identificadas.
Essa fotografia coloca uma eventual Afya-Yduqs diante de uma análise concorrencial diferente das enfrentadas pela Afya em aquisições recentes. Acostumada a passar pelo Cade com negócios aprovados sem restrições, muitas vezes pelo rito sumário, a companhia pode ter na concentração em medicina o principal ponto de atenção.
Os números não significam que essas serão as participações consideradas pelo Cade. A definição do mercado relevante é feita durante a análise do ato de concentração e pode variar geograficamente e em relação ao produto. No setor de educação, a análise costuma levar em consideração recortes nacionais e, principalmente, regionais.
Qualquer operação que potencialmente concentre entre 10% e 30% do mercado vai exigir do Cade uma análise minuciosa e mais demorada. Uma operação como essa, mesmo que não inspire contrapartidas, deve levar pelo menos seis meses até sua aprovação. Até aqui, a Afya nunca teve que esperar tanto.
No Rio de Janeiro, a Afya possui 120 vagas anuais autorizadas de medicina na Unigranrio, na Barra da Tijuca. A Yduqs soma outras 410 vagas por meio do Idomed: 240 na unidade Vista Carioca e 170 no Città. Entre os concorrentes privados estão a Fundação Técnico-Educacional Souza Marques, com 192 vagas; a Universidade Veiga de Almeida (UVA), com 120; e a Universidade Castelo Branco (UCB), com 90. Nesse universo de 932 vagas privadas, a Yduqs responderia por cerca de 44% e a Afya por 13%. Juntas, chegariam a 530 vagas, ou aproximadamente 57% da capacidade privada identificada no município.
A conta muda se as universidades públicas forem consideradas concorrentes. UFRJ, UNIRIO e UERJ somam outras 454 vagas. Incluídas, o universo sobe para 1386 vagas e Afya e Yduqs representariam cerca de 38%. Caberia ao Cade avaliar até que ponto uma vaga gratuita, com processo seletivo diferente, exerce pressão competitiva sobre cursos privados com mensalidades elevadas.
Em Teresina, a Uninovafapi, da Afya, possui 171 vagas anuais autorizadas, enquanto a Unifacid Wyden, da Yduqs, tem 110. O levantamento identificou ainda 100 vagas da UNI-CET, 60 do UNIFSA e 60 da Uninassau Sul. Considerando o universo privado de 501 vagas, a Afya teria cerca de 34% e a Yduqs, 22%. A combinação chegaria a 281 vagas, ou aproximadamente 56%.
Em Ji-Paraná, a São Lucas, controlada pela Afya, possui 28 vagas anuais autorizadas. A Yduqs controla outras 78 vagas, divididas entre FAMEJIPA, com 50, e Estácio UNIJIPA, com 28. São as 106 vagas de medicina autorizadas identificadas no município. Sob recorte estritamente municipal, Afya e Yduqs passariam de participações aproximadas de 26% e 74% para 100% das vagas. O número cai com recorte regional: o MEC considerou 33 vagas em Jaru, levando o universo a 139. Mesmo assim, as 106 vagas equivaleriam a cerca de 76%.
Nas regras do Cade para o procedimento sumário, uma das hipóteses de menor potencial ofensivo envolve operações com sobreposição horizontal em que a participação combinada seja inferior a 20% do mercado relevante. Ultrapassar os 20% não significa que a operação será barrada, mas deixa de existir uma das hipóteses mais claras para caracterizar a sobreposição como de baixo impacto.
Esse ponto diferencia uma eventual aquisição da Yduqs do histórico recente de M&A da Afya. Em 2020, a companhia submeteu a aquisição do Centro de Ensino São Lucas, aprovada sem restrições pela Superintendência-Geral. No ano seguinte, o Cade aprovou sem restrições a compra da Sociedade Padrão de Educação Superior, dona da Unigranrio. Mais recentemente, a companhia comprou a Unidom, em Salvador, por cerca de R$ 660 milhões, com aproximadamente 300 vagas de medicina, aprovada sem restrições em maio de 2024. No fim de 2024, a Afya adquiriu a Faculdade Masterclass, em Minas Gerais, analisada pelo procedimento sumário e aprovada sem restrições.
Em 2017, o Cade barrou a aquisição da Estácio pela Kroton, atual Cogna. A operação criaria uma companhia com presença dominante em diferentes segmentos do ensino superior. O Cade identificou problemas concorrenciais no ensino presencial em mercados locais e concentração elevada no EAD, onde a Kroton possuía cerca de 37% do mercado e chegaria a aproximadamente 46% com a Estácio. A maioria do tribunal concluiu que os remédios discutidos não eram suficientes e vetou a transação.
Uma eventual operação Afya-Yduqs partiria de configuração diferente. A Afya é mais especializada em medicina e saúde do que a antiga Kroton, enquanto a Yduqs possui negócios diversificados em Estácio, Wyden, Ibmec e Idomed. Nacionalmente, a concentração seria menor: Afya (11,6%) e Yduqs (6,6%) teriam, juntas, 18,2% de todas as vagas autorizadas de medicina do país, quase três vezes a Ânima, com 5,9%, segundo relatório do Banco BTG.
Para quem acompanha o setor, a lição é clara: o Cade olha além dos números nacionais. Se você é empreendedor ou investidor no segmento educacional, acompanhar a definição do mercado relevante será crucial. A próxima ação prática? Fique de olho nos próximos passos do Cade e avalie como a concentração regional pode afetar a concorrência e o acesso a vagas de medicina na sua região.