Dois anos após adquirir a D4Sign, a italiana Zucchetti começa a imprimir nova ambição sobre a empresa brasileira de assinatura eletrônica e digital. A companhia passa pelo primeiro grande reposicionamento desde a aquisição, concluída em 2024, com meta de levar o faturamento dos atuais cerca de R$ 70 milhões para R$ 250 milhões em três anos.
A D4Sign quer deixar de ser percebida apenas como plataforma para assinatura de documentos e ganhar espaço na gestão de contratos de ponta a ponta. A estratégia combina mais investimento em tecnologia, inteligência artificial e ofensiva de marca para colocar a empresa no radar das grandes corporações brasileiras. O orçamento de TI cresceu 79%, para R$ 15,2 milhões ao ano. Só neste ano, outros R$ 10 milhões foram destinados a marca, comunicação e mídia.
A conta pressupõe acelerar um negócio que já vem crescendo. A meta é manter expansão média de 30% ao ano, acima dos cerca de 20% atribuídos pela companhia ao mercado de assinatura eletrônica. O crescimento de 30% ao ano, sozinho, não seria suficiente para levar R$ 70 milhões a R$ 250 milhões em três anos: nesse ritmo, a receita chegaria a pouco mais de R$ 150 milhões. A meta de R$ 250 milhões pressupõe, portanto, aceleração adicional do negócio ou outras avenidas de receita.
A principal mudança de estratégia da D4Sign é ampliar o espaço ocupado dentro dos clientes. Em vez de participar apenas da etapa final, com a assinatura eletrônica, pretende acompanhar todo o ciclo de um contrato e usar inteligência artificial para extrair informações dos documentos. A tecnologia já começou a ser construída antes da aquisição pela Zucchetti. Desde 2023, a plataforma utiliza IA para gerar resumos e extrair insights dos contratos. Agora, o plano é ampliar as aplicações para áreas jurídicas, financeiras, de recursos humanos e suprimentos.
A empresa afirma que sua ferramenta de IA consegue reduzir em até 70% o tempo dedicado à leitura e análise de contratos, além de permitir consultas sobre os documentos por meio de um chatbot. Cyrela, Stone, FGV, Cury e iFood estão entre as empresas que já utilizam a plataforma. Ao todo, a D4Sign diz atender mais de 500 mil empresas. "O que entregamos vai muito além da assinatura de um documento: falamos de gestão de contratos de ponta a ponta, com uso de inteligência artificial", diz Rafael Figueiredo, fundador e CEO da D4Sign.
O desenvolvimento da tecnologia continua concentrado dentro de casa. A plataforma é proprietária e toda a engenharia é feita internamente, uma escolha que a companhia vê como importante para adaptar o produto rapidamente às demandas dos clientes brasileiros. Parte da tese para ganhar espaço entre grandes empresas passa por uma característica que a D4Sign considera difícil de ser replicada pelos concorrentes globais: conhecer as peculiaridades regulatórias brasileiras.
A plataforma possui mais de 15 métodos de autenticação, incluindo validações por Pix e WhatsApp, e tem certificação ISO 27001 de segurança da informação. A leitura da companhia é que mudanças como a reforma tributária aumentam a complexidade enfrentada pelas empresas e abrem espaço para fornecedores capazes de adaptar seus produtos rapidamente às regras locais. "Conhecemos profundamente os desafios enfrentados pelas empresas brasileiras porque crescemos lado a lado e somos uma delas", diz Figueiredo.
O reposicionamento é o primeiro grande ato desde que a D4Sign passou para as mãos da Zucchetti, em 2024. A empresa brasileira havia crescido organicamente, sem levantar capital de fundos de investimento, até atrair a multinacional italiana de software. A aquisição colocou a D4Sign dentro de um grupo global e abriu nova etapa para um negócio construído por mais de uma década de maneira independente. "O rebranding vem ratificar esse novo posicionamento ao mercado, mas o que realmente está por trás dele é uma estratégia sustentada por tecnologia, proximidade com o cliente e profundo conhecimento do mercado nacional", afirma Alessio Mainardi, CEO da Zucchetti Brasil.