Em 1949, o médico português Egas Moniz recebeu o Nobel de Fisiologia ou Medicina pelo desenvolvimento da leucotomia pré-frontal, a cirurgia que ficaria conhecida como lobotomia. O comitê descreveu a descoberta como de "valor terapêutico comprovado". Hoje, o procedimento é rejeitado como um dos maiores erros da história da medicina.
A técnica consistia em perfurar o crânio dos dois lados, na altura das têmporas, e inserir um tubo de metal com um fio retrátil que cortava um círculo no lobo frontal. Seis cortes de cada lado, doze ao todo. A operação era rápida: pacientes eram operados no mesmo dia da chegada ao hospital e voltavam ao internamento psiquiátrico em até dez dias.
Moniz desenvolveu a técnica com o neurocirurgião Almeida Lima em 1935, após assistir a uma apresentação de pesquisadores de Yale, em Londres, que haviam removido o córtex pré-frontal de um chimpanzé agressivo e observado o animal ficar dócil. A comunidade médica recebeu bem a técnica, e ela se espalhou para dezenas de países.
Os 20 casos-base de Moniz não tinham grupo de controle nem acompanhamento de longo prazo. Parte dos pacientes classificados como "melhorados" ficou apática e dócil, não necessariamente mais saudável. A cirurgia era irreversível, com taxas de mortalidade de até 20% relatadas em alguns levantamentos da época.
Nos Estados Unidos, a lobotomia virou operação de escala industrial. Um documento hospitalar de 1941 projetava operar 18 de 1.250 pacientes, a US$ 250 cada, para economizar US$ 351 mil em dez anos com a liberação de leitos. Estima-se que cerca de 50 mil lobotomias tenham sido feitas no país entre 1936 e 1972, com benefício real em apenas cerca de 10% dos casos.
No Brasil, a primeira leucotomia foi feita em 25 de agosto de 1936, no Hospital Psiquiátrico do Juquery, em São Paulo, pelo neurocirurgião Aloysio Mattos Pimenta. Só ali, foram cerca de 700 intervenções até 1949. A prática minguou no Brasil por volta de 1956, com a chegada dos primeiros antipsicóticos.
Moniz nunca recuou publicamente. Em 1954, um ano antes de morrer, publicou "A Leucotomia Está em Causa", defendendo a própria invenção. Décadas depois, familiares de pacientes lobotomizados nos EUA pediram a revogação do Nobel, mas o pedido não prosperou. O prêmio segue registrado em seu nome.