Enquanto o El Niño não deixa os brasileiros guardarem as roupas de frio, na Europa o fenômeno tem levado a calor extremo, e isso está fazendo prédios afundarem. Viver o verão europeu, que para muitos é um sonho, virou pesadelo neste ano: pela primeira vez, a estação está causando rachaduras nas paredes, portas emperradas e janelas deformadas.
O calor extremo e a seca ressecam o solo argiloso, que encolhe de forma desigual sob as fundações. Isso puxa os edifícios para baixo, causando rachaduras e danos estruturais. Em Londres, mais de 26% dos imóveis podem ser afetados até 2070, segundo o BGS.
Londres e outras cidades do sudeste da Inglaterra enfrentam uma onda de calor nunca vista antes. Escolas fecharam, trilhos de trem deformaram e casas afundaram. A combinação de calor e seca resulta em subsidência do solo: à medida que o calor resseca o terreno, ele se desloca e encolhe, puxando as construções para baixo.
O solo dessa parte do Reino Unido é argiloso. Quando úmido, funciona como esponja, absorvendo água e expandindo. Quando seco, ocorre o efeito chamado shrink-swell, ou encolhimento-expansão. O solo encolhe de forma desigual sob as fundações, e os imóveis afundam. Londres é ainda mais vulnerável por causa dos tipos de argila sobre os quais foi construída, com minerais expansivos sensíveis às mudanças de umidade.
As árvores e plantas também contribuem. Durante o calor, as raízes crescem em busca de água e procuram o solo mais úmido por perto, deixando o terreno ainda mais seco. Imóveis antigos são os mais vulneráveis: mais da metade das casas da cidade foi construída antes de 1945.
Em muitas áreas de Londres, 100% dos imóveis podem enfrentar risco possível ou provável de subsidência até 2030, incluindo regiões centrais como Kensington, City of London e Westminster. O dado vem de apuração da CNN com a seguradora britânica Aviva.
A mesma apuração ouviu Bob Gibson, especialista em subsidência e diretor da consultoria Building & Structural Consultants. Quando começou a trabalhar na área, há 40 anos, a questão se concentrava no sudeste da Inglaterra. "Mas, com as mudanças climáticas, ele agora afeta muitas outras partes do Reino Unido", afirmou. Gibson explicou que, em verões quentes e secos, há explosão no número de pedidos de indenização relacionados à subsidência.
No ano passado, o Reino Unido teve um verão extraordinariamente quente. O setor de seguros desembolsou um recorde de US$ 415 milhões em indenizações ligadas ao problema, alta de 10% em relação a 2024, segundo a Associação das Seguradoras Britânicas (ABI). Para Gibson, os números devem crescer neste ano.
No segundo trimestre de 2026, as seguradoras pagaram mais de US$ 97 milhões em indenizações por subsidência no Reino Unido. Em média, o valor das reivindicações atingiu um recorde de US$ 27 mil, mais de US$ 2.700 acima do mesmo período do ano anterior, segundo a ABI. Somente em Londres, mais de 26% dos imóveis podem ser afetados até 2070 se o aquecimento global continuar no ritmo atual, segundo dados do BGS.
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