# André Mendonça: ministro do STF que molda a eleição

> André Mendonça é ministro do Supremo Tribunal Federal indicado por Jair Bolsonaro em 2021 e tornou-se figura central nas decisões sobre o processo eleitoral de 2022. Suas determinações envolvendo a Polícia Federal e o Tribunal Superior Eleitoral geraram atritos institucionais e mobilizaram a base bolsonarista.

*Viva Capital · Economia · 10 de setembro de 2026 · Thiago Vasques*

Ministro André Mendonça, do STF, virou símbolo da direita e suas decisões suspendem chefe da PF e expõem crise na corte. Entenda o papel dele na eleição de 4 de outubro.

Milhares de pessoas se reuniram na Avenida Paulista, em São Paulo, na segunda-feira (7), para apoiar o candidato presidencial de direita Flávio Bolsonaro, a poucas semanas das eleições de 4 de outubro. Mas o aspirante ao Palácio do Planalto pode não ter sido a figura mais importante do evento. Um balão gigante com a imagem do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça dominava a multidão. Ele não estava lá, mas se tornou um herói para a direita brasileira.

Mendonça é o único membro assumidamente evangélico da Suprema Corte. Indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em 2021, ele vem demonstrando influência crescente por meio de decisões que podem prejudicar a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à reeleição.

Na terça-feira (8), Mendonça suspendeu o chefe da Polícia Federal de Lula após a divulgação de um relatório de inteligência com suspeitas contra o ministro. A decisão agravou uma crise que se tornou um problema crescente para o presidente em uma disputa eleitoral acirrada.

A medida é mais um ponto de tensão em uma luta sobre os rumos do STF. Mendonça se tornou uma das principais vozes de um bloco conservador emergente, cujas decisões frequentemente entram em conflito com o governo Lula. O próximo presidente poderá nomear pelo menos três ministros para o tribunal de 11 membros, o que pode remodelar seu equilíbrio ideológico por anos.

Entrevistas com quatro fontes do Supremo, da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República (PGR) críticas a Mendonça revelaram preocupação de que suas decisões façam parte de um esforço para a derrota eleitoral de Lula. Dois aliados de Mendonça, que pediram para não ser identificados, rejeitam essa caracterização e o descrevem como um juiz independente.

Nesta quarta-feira (9), o mal-estar veio à tona. O ministro Flávio Dino, indicado por Lula, emitiu decisão separada reintegrando o chefe da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Sem mencionar Mendonça pelo nome, Dino advertiu que os juízes devem evitar ações que possam ser usadas para alimentar propaganda política ou eventos de campanha.

Mais tarde, o presidente do STF, Edson Fachin, cassou as decisões liminares de Mendonça e de Dino sobre a permanência do diretor-geral da PF. Também determinou a suspensão do caso relatado por Mendonça em que foi produzido um relatório da PF apontando supostos vínculos do banqueiro Daniel Vorcaro com Moraes, Andrei Rodrigues e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Em uma igreja de São Paulo, em um sábado chuvoso do final de agosto, cerca de 150 homens ouviram Mendonça pregar sobre os "Princípios de um Líder Íntegro". "Um líder íntegro é alguém em quem você pode confiar", disse ele. O ministro, que também era pastor auxiliar, pediu desculpas por sair mais cedo e não ficar para um churrasco porque precisava voltar a Brasília.

Dois dias antes, Mendonça havia recebido um relatório policial, produzido a seu pedido, sobre o colega Alexandre de Moraes e seu suposto papel como "consultor" de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, instituição no centro de uma investigação de fraude bilionária, liquidada pelo Banco Central. Moraes é detestado por muitos na direita por ter relatado o inquérito contra Jair Bolsonaro por conspiração golpista que levou à condenação do ex-presidente.

O relatório da PF detalhou mensagens, incluindo um possível plano de fuga, que o banqueiro teria enviado a Moraes. Moraes não respondeu a pedido de comentário. Mendonça tornou o relatório público, o que levou Moraes a pedir uma investigação contra ele por suposto abuso de autoridade, mergulhando o tribunal em crise.

Tentando conter a disputa, o presidente do Supremo tomou no final da tarde desta quarta uma série de deliberações cassando decisões dos colegas e esvaziando poderes deles. Uma sessão do plenário foi convocada para a próxima terça para discutir os próximos passos, em um novo capítulo do embate entre ministros.

Mendonça passou grande parte da carreira nos bastidores, na Advocacia-Geral da União (AGU), onde coordenou acordos de leniência de grandes empresas relacionados à operação Lava Jato. Bolsonaro o nomeou para chefiar a AGU em 2019, ministro da Justiça um ano depois e, em 2021, para o STF, cumprindo a promessa de indicar um juiz "terrivelmente evangélico".

Ele sempre evitou confrontos públicos com os pares. Embora muitos colegas organizem eventos em Brasília, raramente comparecia. Mas tem se esforçado para angariar apoio, convocando-os a coordenar posições sobre decisões, relatou uma pessoa próxima. A extensão desse apoio ficou clara na terça, quando dois integrantes da corte endossaram prontamente sua decisão de suspender o chefe da PF.

Ainda assim, ele considera seu trabalho imparcial e espera críticas de ambos os lados, segundo duas pessoas próximas. Uma das fontes disse que ele se opôs à ideia de que queira ajudar Flávio Bolsonaro, observando que Mendonça ordenou a abertura de investigação criminal contra o candidato por suspeitas de repasses de recursos de Vorcaro para um filme sobre seu pai. "Você acha que abrir uma investigação contra Flávio ajuda Flávio ou ajuda Lula?", questiona essa pessoa. Mendonça também supervisiona investigações envolvendo o filho mais velho de Lula por tráfico de influência.

Em sua igreja, os fiéis o veem como alguém que "busca só a verdade, doa a quem doer", disse Jerônimo Amaral, advogado de 57 anos que ouviu o sermão no final de agosto. Ao falar sobre cumprir um propósito divino, Mendonça pareceu revelar um presságio sobre a tempestade política que se aproximava. Ele relembrou uma conversa anterior à nomeação, quando Bolsonaro questionou se um "cara tão calmo" poderia "sobreviver em um ambiente tão difícil". Mendonça disse que respondeu que há momentos para ser um "cordeiro" e momentos para ser um "leão". Decidir o que o momento exige, acrescentou, "requer sabedoria".

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Fonte (canonical): https://vivacapital.com.br/economia/andre-mendonca-ministro-8216terrivelmente-evangelico8217-stf-molda-eleicao-brasi/
