África será o novo celeiro do mundo? A realidade ainda está longe dessa velha promessa
A promessa de que a África se tornaria o celeiro do mundo é repetida há décadas. Mas, na prática, o continente ainda está distante desse cenário. Durante o Veja Fórum Agro, o secretário-executivo do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Cleber Soares, reforçou essa visão, mas os dados mostram um quadro bem diferente.
O potencial existe, mas a realidade é outra
A África reúne uma das maiores reservas de terras agricultáveis do planeta e deve concentrar boa parte do crescimento populacional nas próximas décadas. Especialistas projetam que o continente terá papel cada vez mais relevante na segurança alimentar global. Porém, a realidade atual é marcada por baixa produtividade, infraestrutura precária, escassez de tecnologia e um dos maiores índices de insegurança alimentar do mundo.
Os números da fome no mundo e na África
Há dez anos, quando os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) foram lançados pela ONU, a meta era erradicar a fome até 2030. Hoje, esse objetivo não será alcançado. O relatório State of Food Security and Nutrition in the World (SOFI), produzido pela FAO, mostra uma melhora gradual, mas insuficiente.
Segundo a entidade, cerca de 7,8% da população mundial, o equivalente a 645 milhões de pessoas, ainda sofre de desnutrição. Em 2022, esse percentual era de 8,6%; em 2024, caiu para 8,1%.
Na África, o cenário é ainda mais grave. Aproximadamente 310 milhões de africanos vivem em situação de fome crônica, e cerca de 60% da população não consegue pagar por uma dieta saudável.
O que o Brasil tem a ver com isso?
David Laborde, diretor da Divisão de Economia Agroalimentar da FAO, citou o Brasil como exemplo. Durante o Brazil Climate Solutions, realizado pelo Cubo Itaú e Itaú Unibanco, ele afirmou: "Nos últimos 20 anos, o Brasil aumentou em 350% suas exportações de calorias enquanto reduziu a fome em cerca de 80%."
Para Laborde, a solução para a fome passa por tornar uma alimentação saudável acessível a todos. Ele destacou que o problema atinge cerca de um terço da população global e que os choques climáticos, a guerra na Ucrânia e as tensões no Oriente Médio agravam a situação.
Os gargalos da agricultura africana
Apesar das vastas áreas agricultáveis, a agricultura africana enfrenta problemas históricos. A infraestrutura é precária, a mecanização é baixa, o acesso a crédito é limitado e a produtividade é reduzida. Na pecuária, os custos da alimentação animal são elevados e a genética disponível nem sempre é adequada às condições tropicais.
Cleber Soares visitou uma região de Angola onde uma empresa chinesa iniciou um projeto de 2 mil hectares contínuos de arroz, contratando mais de cinquenta profissionais brasileiros, principalmente do Rio Grande do Sul. "Eles vão crescer conosco ou sem nós", alertou.
O papel do Brasil: mais que fornecedor de alimentos
Laborde acredita que o Brasil pode ser um parceiro estratégico, mas não apenas como exportador. "No curto prazo, o Brasil fornecerá parte da comida de que a África precisa. Mas a cooperação mais importante envolve tecnologia, investimentos e capacitação produtiva."
Segundo ele, a África precisará do comércio internacional para garantir sua segurança alimentar nas próximas décadas. "O continente não terá tempo suficiente para fazer a produção agrícola crescer no mesmo ritmo da população", explicou.
O futuro: uma aposta para as próximas décadas
A produtividade agrícola africana pode se aproximar da brasileira em cerca de 25 anos, segundo Cleber Soares. Mas, antes de alimentar o planeta, o continente precisa garantir segurança alimentar para sua própria população.
A ideia de que a África será o novo celeiro do mundo continua sendo mais uma aposta do que um retrato da realidade atual. O potencial existe, mas os desafios são enormes.
Perguntas Frequentes
Por que a África não se tornou o celeiro do mundo?
A África enfrenta baixa produtividade, infraestrutura precária, escassez de tecnologia e acesso limitado a crédito, o que impede o desenvolvimento agrícola em larga escala.
Quantas pessoas passam fome na África?
Segundo a FAO, cerca de 310 milhões de africanos vivem em situação de fome crônica, e 60% da população não consegue pagar por uma dieta saudável.
Qual o papel do Brasil na segurança alimentar da África?
O Brasil pode fornecer alimentos no curto prazo, mas a cooperação mais importante envolve tecnologia, investimentos e capacitação produtiva.
Quando a África pode se tornar o celeiro do mundo?
Segundo Cleber Soares, a produtividade agrícola africana pode se aproximar da brasileira em cerca de 25 anos, mas isso depende de investimentos e modernização.
O que é o Mapa da Fome?
O Mapa da Fome é baseado no relatório SOFI, produzido pela FAO, que monitora a segurança alimentar e a nutrição no mundo.
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