# África será o novo celeiro do mundo? A realidade ainda está longe

> África possui terras aráveis e população jovem suficientes para se tornar o celeiro mundial, mas a produtividade agrícola permanece baixa e a fome atinge milhões. A infraestrutura deficiente, a falta de tecnologia e o financiamento escasso impedem o avanço. O Brasil, com experiência em cerrado tropical, pode oferecer cooperação técnica, mas a transformação africana exige décadas de investimento e políticas públicas.

*Viva Capital · Economia · 06 de agosto de 2026 · Thiago Vasques*

A África tem terras e população para virar o celeiro do mundo, mas a realidade ainda é de fome e baixa produtividade. Entenda os desafios e o papel do Brasil.

## África será o novo celeiro do mundo? A realidade ainda está longe dessa velha promessa

A promessa de que a África se tornaria o celeiro do mundo é repetida há décadas. Mas, na prática, o continente ainda está distante desse cenário. Durante o Veja Fórum Agro, o secretário-executivo do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Cleber Soares, reforçou essa visão, mas os dados mostram um quadro bem diferente.

## O potencial existe, mas a realidade é outra

A África reúne uma das maiores reservas de terras agricultáveis do planeta e deve concentrar boa parte do crescimento populacional nas próximas décadas. Especialistas projetam que o continente terá papel cada vez mais relevante na segurança alimentar global. Porém, a realidade atual é marcada por baixa produtividade, infraestrutura precária, escassez de tecnologia e um dos maiores índices de insegurança alimentar do mundo.

## Os números da fome no mundo e na África

Há dez anos, quando os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) foram lançados pela ONU, a meta era erradicar a fome até 2030. Hoje, esse objetivo não será alcançado. O relatório State of Food Security and Nutrition in the World (SOFI), produzido pela FAO, mostra uma melhora gradual, mas insuficiente.

Segundo a entidade, cerca de 7,8% da população mundial, o equivalente a 645 milhões de pessoas, ainda sofre de desnutrição. Em 2022, esse percentual era de 8,6%; em 2024, caiu para 8,1%.

Na África, o cenário é ainda mais grave. Aproximadamente 310 milhões de africanos vivem em situação de fome crônica, e cerca de 60% da população não consegue pagar por uma dieta saudável.

## O que o Brasil tem a ver com isso?

David Laborde, diretor da Divisão de Economia Agroalimentar da FAO, citou o Brasil como exemplo. Durante o Brazil Climate Solutions, realizado pelo Cubo Itaú e Itaú Unibanco, ele afirmou: "Nos últimos 20 anos, o Brasil aumentou em 350% suas exportações de calorias enquanto reduziu a fome em cerca de 80%."

Para Laborde, a solução para a fome passa por tornar uma alimentação saudável acessível a todos. Ele destacou que o problema atinge cerca de um terço da população global e que os choques climáticos, a guerra na Ucrânia e as tensões no Oriente Médio agravam a situação.

## Os gargalos da agricultura africana

Apesar das vastas áreas agricultáveis, a agricultura africana enfrenta problemas históricos. A infraestrutura é precária, a mecanização é baixa, o acesso a crédito é limitado e a produtividade é reduzida. Na pecuária, os custos da alimentação animal são elevados e a genética disponível nem sempre é adequada às condições tropicais.

Cleber Soares visitou uma região de Angola onde uma empresa chinesa iniciou um projeto de 2 mil hectares contínuos de arroz, contratando mais de cinquenta profissionais brasileiros, principalmente do Rio Grande do Sul. "Eles vão crescer conosco ou sem nós", alertou.

## O papel do Brasil: mais que fornecedor de alimentos

Laborde acredita que o Brasil pode ser um parceiro estratégico, mas não apenas como exportador. "No curto prazo, o Brasil fornecerá parte da comida de que a África precisa. Mas a cooperação mais importante envolve tecnologia, investimentos e capacitação produtiva."

Segundo ele, a África precisará do comércio internacional para garantir sua segurança alimentar nas próximas décadas. "O continente não terá tempo suficiente para fazer a produção agrícola crescer no mesmo ritmo da população", explicou.

## O futuro: uma aposta para as próximas décadas

A produtividade agrícola africana pode se aproximar da brasileira em cerca de 25 anos, segundo Cleber Soares. Mas, antes de alimentar o planeta, o continente precisa garantir segurança alimentar para sua própria população.

A ideia de que a África será o novo celeiro do mundo continua sendo mais uma aposta do que um retrato da realidade atual. O potencial existe, mas os desafios são enormes.

## Perguntas Frequentes

### Por que a África não se tornou o celeiro do mundo?

A África enfrenta baixa produtividade, infraestrutura precária, escassez de tecnologia e acesso limitado a crédito, o que impede o desenvolvimento agrícola em larga escala.

### Quantas pessoas passam fome na África?

Segundo a FAO, cerca de 310 milhões de africanos vivem em situação de fome crônica, e 60% da população não consegue pagar por uma dieta saudável.

### Qual o papel do Brasil na segurança alimentar da África?

O Brasil pode fornecer alimentos no curto prazo, mas a cooperação mais importante envolve tecnologia, investimentos e capacitação produtiva.

### Quando a África pode se tornar o celeiro do mundo?

Segundo Cleber Soares, a produtividade agrícola africana pode se aproximar da brasileira em cerca de 25 anos, mas isso depende de investimentos e modernização.

### O que é o Mapa da Fome?

O Mapa da Fome é baseado no relatório SOFI, produzido pela FAO, que monitora a segurança alimentar e a nutrição no mundo.

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Fonte (canonical): https://vivacapital.com.br/economia/africa-sera-novo-celeiro-mundo-realidade-ainda-esta-longe-dessa-velha-promessa/
