Juros globais podem frear cortes da Selic, diz Santander
O economista Marco Antonio Caruso, chefe de política monetária do Santander Brasil, afirma que é difícil para um país emergente sustentar cortes de juros enquanto as economias desenvolvidas caminham na direção contrária. "É difícil ir contra a maré", disse, ao comentar a decisão do Copom de quarta-feira (5).
Por que os juros globais importam para o Brasil?
Caruso explica que o ambiente internacional, citado no comunicado do Copom, ganhou peso. As curvas de juros das economias desenvolvidas mostram pressão de alta, o que pode alterar as condições financeiras para países emergentes como o Brasil.
Ele cita o Banco Central Europeu subindo juros e as curvas do Japão pressionadas. "Quase todas as curvas de juros dos desenvolvidos estão pressionadas para cima", afirmou.
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) trocou seu presidente, e o novo comando adotou comunicação mais dura. O cenário-base do Santander prevê duas altas dos juros pelo Fed ainda em 2026.
O risco do dólar pressionado e da inflação
Para Caruso, o problema para o Brasil apareceria se os juros externos subissem mais do que o mercado espera. Nesse caso, a pressão sobre o dólar aumentaria e afetaria as projeções de inflação do Banco Central. Uma moeda brasileira mais depreciada poderia piorar as projeções do modelo do BC.
O modelo do BC projeta inflação de 3,20% no primeiro trimestre de 2028, enquanto o Focus aponta para cerca de 4,10%.
Ainda há espaço para cortes em setembro?
Apesar do risco externo, Caruso avalia que a leitura atual dos modelos do Banco Central ainda é compatível com a continuidade da flexibilização. Há espaço para uma nova redução da Selic em setembro e, dependendo dos dados, até para cortes no quarto trimestre.
O economista ressalta que o Copom pode não querer sinalizar uma sequência de cortes. A comunicação cautelosa pode ser deliberada para evitar que o mercado antecipe várias reduções.
Atividade fraca e expectativas desancoradas
Caruso espera que a ata da reunião traga mais detalhes sobre a desaceleração da atividade e as surpresas recentes da inflação corrente. Os dados de curto prazo parecem vir mais fracos, surpreendendo para baixo, e a atividade perde ímpeto.
O principal obstáculo continua sendo a desancoragem das expectativas de inflação. "O grande senão realmente são as expectativas de inflação, que continuam desancoradas", afirmou.
Projeção do Santander para a Selic
O Santander trabalha com uma Selic de 13,75% ao fim de 2026, considerando mais um corte e depois uma pausa. Caruso admite que o cenário pode mudar: "Se a foto de dezembro for igual a foto de agosto, provavelmente a gente vai ter ido para uma Selic de 13,25%".
A pausa projetada está ligada aos riscos que podem ganhar força até o fim do ano. "Eu preciso realmente esperar", disse.
Perguntas Frequentes
O que é a Selic?
A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira, definida pelo Copom. Ela influencia todas as outras taxas do país, desde o crédito até os investimentos em renda fixa. Atualmente, a Selic está em 14,00% ao ano, segundo o Banco Central.
Como os juros globais afetam a Selic?
Juros altos nas economias desenvolvidas podem pressionar o dólar e a inflação no Brasil, o que pode levar o Copom a interromper os cortes na Selic para controlar a alta de preços.
O que é desancoragem das expectativas de inflação?
É quando o mercado não acredita que a inflação vai convergir para a meta no horizonte relevante. Isso pode levar o Banco Central a ser mais cauteloso na redução dos juros.
Quando será a próxima reunião do Copom?
A próxima reunião do Copom está prevista para setembro. O mercado acompanha os dados de inflação e atividade para antecipar a decisão.
Para entender melhor como a Selic impacta seus investimentos, veja nosso guia sobre renda fixa e a taxa básica de juros e como declarar investimentos no Imposto de Renda.
