O mercado de crédito rural brasileiro segue sob pressão. Em julho, as operações problemáticas, que incluem empréstimos em atraso, inadimplentes, prorrogados ou renegociados, somaram R$ 207,4 bilhões, o maior valor da série histórica. O número representa 23,5% da carteira total do Sistema Financeiro Nacional, avaliada em R$ 881,6 bilhões, segundo relatório do BTG Pactual.
Os analistas Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Antonio Pascale apontam que os dados mais recentes do Banco Central mostram nova deterioração da qualidade do crédito no segmento. O índice de inadimplência dos empréstimos rurais para pessoas físicas também chegou a recorde de 8,8%. O principal vetor da piora foi o salto nos empréstimos vencidos há mais de 90 dias, que passaram de R$ 38,1 bilhões em junho para R$ 45,7 bilhões em julho, alta de 20% em um mês.
O cenário é particularmente delicado no Rio Grande do Sul. Lá, as exposições problemáticas somam R$ 44,9 bilhões, o equivalente a 41,6% da carteira de crédito rural do estado, de R$ 108,8 bilhões. O relatório lembra que o produtor gaúcho enfrentou cinco anos seguidos de perdas por secas e enchentes. Os empréstimos em atraso no estado quase dobraram, para R$ 4,1 bilhões, enquanto o saldo adimplente caiu de quase R$ 74 bilhões em março para R$ 63,8 bilhões.
Do total problemático gaúcho, R$ 37,4 bilhões ainda estão em dia porque os contratos foram prorrogados ou renegociados antes de vencer. Em Mato Grosso do Sul, os empréstimos problemáticos chegaram a R$ 19,5 bilhões, mais que o dobro dos R$ 9,5 bilhões adimplentes. Já em Goiás e Mato Grosso, o saldo problemático recuou para cerca de R$ 20 bilhões e R$ 21,8 bilhões, respectivamente.
O BTG também destaca as dificuldades dos produtores para acessar as linhas de renegociação da MP 1.376/2026. Entre os entraves, a exigência de pagamentos antecipados de até 15% do saldo devedor e garantias adicionais. O relator da MP, deputado Paulo Pimenta, defendeu ampliar o prazo para prorrogar parcelas próximas do vencimento, mas as conversas com o governo ainda não terminaram.
A leitura que faço, como analista, é de cautela: o crédito rural segue com risco elevado, especialmente no Sul. Antes de qualquer decisão, vale avaliar o horizonte de tempo e a capacidade de pagamento. Não há recomendação aqui, apenas dados para basear seu estudo próprio. A diversificação, inclusive fora do agronegócio, segue sendo o caminho mais prudente.